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Pedro Caram (2003-2004)
Você está em uma página isolada do Matheus Day-by-Day, em memória ao amado e querido filho falecido de Patrícia e Silvio.
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23.11.04
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11:20
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A passagem de Pedro
Hoje foi o funeral. Pude então entender melhor o acontecido.
Agora posso escrever com mais calma e serenidade, e usar informações mais corretas e concisas. O texto está menos emotivo e blasfêmico, como deveria ter sido o primeiro. Optei por deixar este episódio separado do blog não só para não comprometer o astral do tema, mas para criar um memorial fixo, independente da rotatividade regular dos textos.
Pedrinho era a criança mais parecida com o Matheus que eu já vi até hoje. Não fisicamente, mas em todo o resto. Ele era agitado, dormia pouco (mesmo nas primeiras semanas de vida), tinha refluxo, ria muito, era precoce e bastante sagaz. E se o Matheus é o aventureiro que é hoje, é porque a Camille e eu estimulamos isso. No entanto, nesse quesito, os pais do Pedro deixam a gente no chinelo, porque até no Pantanal eles já foram passear. Ou seja, o Pedrinho tinha tudo para ser expert em montanha, praia, mata, rio, mergulho, etc.
Mas o destino tinha outros planos pra ele, que infelizmente foram postos em prática ontem.
O ocorrido que eu havia entendido me foi passado ainda no hospital, poucos minutos após os médicos confirmarem que não havia mais chance de ressucitá-lo. Não sei ainda se eu entendi errado por causa do meu estado de choque, ou pelo estado alterado da vizinha deles que me passou. Provavelmente ambos. Mas o que aconteceu, na verdade, não dá margem a discussão de erro médico, que era o que eu tinha em mente, embora seja muito, mas muito mais traumático do que a versão anterior.
Pedrinho passou o domingo com febre, o que já baixou naturalmente seu fator imunológico. E ele, assim como muitas crianças, tinha refluxo*. [Para quem não tem filhos ainda, uma breve explicação. A maioria dos bebês vomita ou regurgita durante um certo período. Isto é devido ao mau funcionamento de uma válvula que existe na entrada do estômago chamada cárdia. Normalmente esta válvula se fecha após a passagem do alimento,impedindo sua volta para a boca através do esôfago. Por isso a gente não consegue engolir e respirar ao mesmo tempo, porque o caminho de entrada é o mesmo, mas é essa válvula que diz, como uma interceção de linha de trem, pra qual caminho o que está vindo irá. Se for ar, ela fica fechada, e segue direto pro pulmão. Se for sólido, ela se abre, desviando o caminho para o estômago. Entretanto, na grande maioria dos bebês esta válvula não funciona bem e, ou fica meio aberta, ou se abre com facilidade, mesmo com o estômago cheio. Assim que a criança se deita ou quando a pressão abdominal aumenta (por tosse, por exemplo) a criança vomita. Então para resolver este problema, 99% dos pediatras receitam o remédio Plasil quando essa fase de refluxo aumentar.]
Pois bem. Ele precisou tomar esse remédio, porque quando a criança está fraca ela precisa se alimentar. E junto com ele, tomou duas mamadeiras de leite. Mas, ao ver a mãe comendo maçã ao lado dele, ele pediu um pedacinho também. Ela se surpreendeu com a fome, mas como ninguém nega comida pra filho, deu um pedacinho pequeno pra ele. Ele comeu e pediu outro. Só que o segundo ficou preso na garganta, e quando isso acontece, o corpo vomita para liberar o pedaço, e permitir a entrada de ar. Mas o remédio simplesmente não deixou o vômito subir. Então, como era uma quantidade grande de leite entre uma pressão feita pelo estômago para empurrar, e a garganta fechada empurrando de volta, o leite foi jogado pelo caminho do meio: o do pulmão. Isso causou uma parada cardíaca no Pedrinho, e os pais correram pro hospital para tentar reanimá-lo.
Ou seja, ele morreu nos braços da mãe. Deus queira que ela não se culpe, porque ela fez o que qualquer um faria.
O funeral hoje foi muito triste. Felizmente os pais estão muito unidos, muito iluminados. Nunca vi um texto de despedida tão emocionante quanto o que eles fizeram.
Foi muito difícil ver o caixãozinho entrando e saindo. E eles ainda colocaram o brinquedinho preferido dele em cima, que era um telefone de brinquedo, pra ele poder ligar pros pais quando quiser.
É revoltante pensar numa fatalidade como essa com pais que amam tanto seus filhos, enquanto tem tanta gente por aí dando a luz contra vontade, largando a criança em qualquer lugar...
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23.11.04
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10:55
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Dúvida
Expliquei a situação para o Matheus, que me faz a dolorosa pergunta:
- Ué, mas por que o papai do céu chamou ele tão pequeniniho?
Não sei, filho, não sei.
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22.11.04
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10:21
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Pedro
Algumas coisas na vida acontecem e não conseguimos entender o propósito. Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas, mas como certos acontecimentos podem fazer parte de Seu plano? Como uma desgraça pode trazer algum bem a alguém? A religiosidade é e sempre será a primeira coisa a ser questionada nessas horas.
Sábado combinamos por telefone com a madrinha do Matheus de nos encontrar no domingo pra bater papo e deixar os nossos filhos brincarem. Mas no domingo o programa ficou em stand-by porque o Pedrinho estava com febre. Hoje, às duas da manhã, a dinda nos liga pedindo o pager de emergência do nosso Pediatra. Percebemos pela voz dela que a situação é grave. A Camille revira toda a documentação de quando o Matheus era bebê pra ver se encontra, mas só tinhamos o celular, que estava desligado. Ligamos então pra dizer que não achamos, meia hora depois, mas não conseguíamos falar, só dava ocupado. Tinha alguma coisa errada. Até que um pouco mais tarde completamos a ligação, e ouvimos a notícia que ninguém poderia imaginar: o Pedrinho faleceu.
No caminho para o hospital, que fica a 5 minutos da minha casa, eu só conseguia, ainda em choque, pensar no que dizer aos pais numa hora dessas. Mas não adianta, eu poderia ter passado 1 hora dirigindo que não chegaria na resposta, e nem conseguiria me preparar para o que presenciei: o desespero dos pais que levaram o filho ao hospital somente porque estava com febre, mas que faleceu porque engasgou com o leite, que foi pros pulmões.
Por que uma criança de menos de um ano e meio morre? Como isso pode fazer parte de um plano maior? O que ela fez que merecesse tão pouco tempo de vida? E os pais? Mesmo que merecessem, que tipo de plano usa a vida de um ser humano pra atingir outro? Só me ocorre uma resposta: não existe plano. Minha fé será menos abalada se eu pensar que o destino nem Deus comanda, do que achar que Ele teve algo a ver com essa covardia.
Voltei pra casa um pouco mais tarde, deixando a Camille lá, porque o Matheus estava sozinho em casa, e porque eu achei que fosse conseguir dormir para vir trabalhar. Ledo engano, coloquei o Matheus na minha cama, e checava a respiração dele de 30 em 30 segundos. Como eu posso ser tão egoísta de ficar pensando no meu filho saudável numa hora dessas? Como fazer parar o pensamento de estar aliviado por não ter sido comigo?
E agora, o que eu faço? Eles certamente vão querer se isolar. Eu respeito esse isolamento e a dor dessa hora, ou tento me aproximar para tentar minimizá-la, apesar de saber que não vou conseguir? Devemos incentivar ou retrair a participação do Matheus na vida deles? Isso vai ajudar ou piorar ainda mais?
Eu não sei de nada. NADA!
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Não, não acabou!
Ainda tem muito mais aqui.
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